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04/11/2009

A opinião de Cacá Bizzocchi

Chegou a hora de André Agassi?

SANTO ANDRÉ / SP (LCS) - A desistência de André Agassi de disputar o Aberto de Cincinnati esta semana teve uma explicação, dada pelo próprio tenista. Depois de chegar à final no ATP Master Series do Canadá na semana anterior, ele vai se poupar para o Aberto dos Estados Unidos, a ser jogado a partir de 29 de agosto. Não, não é uma estratégia nem tampouco essa decisão tem a ver com a flexibilidade do planejamento do atleta. Ele precisa se decidir entre tomar injeções de cortisona para suportar as constantes e crônicas dores lombares que só o deixam jogar a base desse medicamento. Há algum tempo Agassi se submete a sessões diárias de fisioterapia para o tratamento dessa região, que consomem boa parte dos treinamentos, e algumas vezes precisou recorrer à medicação.

 

Com 35 anos nas costas (literalmente), um dos mais velhos jogadores em ação no circuito mundial sente a cruel rotina de treinos e jogos sobrepostos - 20 anos dedicados ao tênis - que a carreira de atleta profissional exige. André Agassi foi campeão por 60 vezes, incluindo Roland Garros, US Open, Wimbledon, Austrália Open e Jogos Olímpicos de Atlanta, entre outros. Depois de um período em baixa, retornou ao tênis no mesmo nível competitivo de antes para embolsar mais de US$ 30 milhões em prêmios. Montou uma fundação que dá oportunidades no esporte a garotos e garotas em situação de risco social, a Andre Agassi Charitable Foundation.

 

Por tudo isso, Agassi não descarta a possibilidade de pendurar a raquete em breve. Perguntado se o adeus poderia ser no Aberto dos EUA, ele desconversou. Porém, talvez não haja melhor oportunidade para o tenista norte-americano deixar as quadras. A despedida no torneio em que ele reinou entre os melhores - com dois títulos em cinco finais disputadas -, seria uma rara chance de seus compatriotas prestarem uma justa homenagem a um dos melhores esportistas de todos os tempos.

 

Abandonar os campos esportivos em alta não é para qualquer um. Poucos são aqueles que sabem escolher e têm suporte emocional para decidir pela aposentadoria quando ainda sabem que suportariam “mais um pouquinho”. Assim foi com Pelé, Lance Armstrong, Pete Sampras, Carl Lewis e outros poucos. Sair de cena e costurar as cortinas do palco é tarefa das mais ingratas e problemáticas. Muitos entram em depressão após a retirada, outros prosseguem em ação entrando em queda de braço com o tempo, alguns tentam retornar após sentir falta da fama, do dinheiro ou simplesmente do cheiro característico de seus esportes.

 

Vamos aguardar a decisão de mais um que já garantiu seu lugar entre aqueles que estão um pouco acima dos mortais. São atletas como André Agassi que fazem do esporte um celeiro de bons modelos para a juventude.

 

Escrevi este texto em 2005. Quatro anos antes de Andre Agassi admitir que usou uma substância proibida, a metanfetamina, em 1997. Mais do que isso, mentiu para o comitê de controle de dopagem da Associação de Tenistas Profissionais (ATP) na ocasião, dizendo que consumiu a droga acidentalmente, ao beber um preparado de um dos assistentes.

 

A substância não é nenhum café pequeno, é a tal da Crystal Meth, consumida comumente via nasal, como a cocaína. Grosso modo, podemos dizer que é algo semelhante ao crack, pelos mesmos efeitos devastadores. Logicamente, Agassi não se viciou na krank - como também é chamada nos EUA, - caso contrário provavelmente já estaria batendo sua bolinha em outra dimensão.

 

Todas as principais conquistas de Agassi estão preservadas na História, afinal nenhuma delas foi conseguida sob efeito da droga (ao que se sabe). Porém, sou obrigado a retirar a última frase da crônica anterior. Qualquer que seja a dificuldade do esportista - superar o adversário, resolver problemas particulares, curar depressões, vencer o medo e a insegurança -, é para isso que deve servir o esporte, para fortalecer o indivíduo. Por si só.

 

Andre Agassi deve continuar reverenciado e admirado, principalmente por sua coragem de admitir o deslize - tirou um peso enorme de sua consciência -, mas deixa de ser um modelo.

 

*Cacá Bizzocchi é técnico de vôlei, professor de Educação Física, jornalista, comentarista da BandSports e colaborador da Photo&Grafia Comunicação (bizzocchi@photoegrafia.com.br).

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