Em 1936, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Berlim, Gretel alcançou a marca que ratificava sua condição de melhor saltadora da Alemanha. Sua presença nas Olimpíadas seria certa em qualquer país, menos na seara de Hitler. Além de não ter reconhecido o feito, o nazismo barrou Gretel e outros 21 atletas judeus.
O pesadelo da jovem de 22 anos a perseguiu durante toda a vida. Ainda hoje, aos 95, Gretel tem um sonho recorrente, como relatou ao Los Angeles Times. “Estou no meio do Estádio Olímpico, com 100 mil pessoas me observando. É minha vez de saltar, mas eu não consigo mover meus músculos, minhas pernas parecem gelatina.”
Antevendo a nuvem negra que tomava conta da Alemanha, logo após o corte, os Bergmann enviaram Gretel para a Inglaterra. Lá ela continuou competindo e vencendo, enquanto em Berlim, uma húngara recebia a medalha de ouro por ter saltado os mesmos 160 centímetros. A atleta que substituiu Gretel ficou em quarto lugar e teve dois anos depois sua masculinidade decretada por um médico, condição que resolveu assumir oficialmente 30 anos depois.
Nos Estados Unidos, para onde migrara em 1937, com apenas quatro dólares, Gretel disputou e venceu o campeonato nacional por duas vezes. A interrupção das disputas devido à Guerra, em 1939, fez com que pendurasse as sapatilhas.
Com as Alemanhas unificadas e a paz finalmente estabelecida, ela voltou ao país natal em 1999 para inaugurar o Gretel Bergmann Sports Arena, em Berlim. A vida da atleta motivou a HBO a realizar um aclamado documentário, intitulado Hitler’s Pawn (O joguete de Hitler, numa tradução livre). Joguete que se transformou durante a preparação da equipe olímpica para os Jogos. Preocupado com a ameaça de boicote internacional caso a perseguição aos judeus ficasse evidente, Hitler obrigou os atletas judeus a treinarem com a equipe olímpica até as vésperas da abertura. Quando teve a certeza da chegada dos estrangeiros, descartou-os e montou seu time ariano.
Durante décadas, Gretel preferiu o ostracismo. Morando em Nova York, com o marido Bruno Lambert, hoje com 99, sua vida começou a ser eternizada quando ganhou de seus dois filhos, por ocasião de seu 80º aniversário, um computador. Escrevendo sua biografia, viveu uma catarse. “Pensar que eu poderia ter sido muito mais feliz se não tivesse vivido com tanto ódio em mim”, declarou ao LA Times. By leaps and bounds foi publicado em 2004.
Depois de ser elevada ao hall da fama dos esportistas da comunidade judaica internacional, faltava o reconhecimento do recorde, a marca capaz de lhe conceder o título olímpico, na terra natal. O ouro que o nazismo transformou em gelatina.
Um mês antes da oficialização do recorde, a vida de Gretel, baseada em sua autobiografia, foi lançada no Festival de Chicago, sob o título Berlim, 36.