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05/02/2010

A opinião de Cacá Bizzocchi*

Esporte, exército e homossexualismo

SANTO ANDRÉ / SP (LCS) O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado para o cargo de ministro do Superior Tribunal Militar, foi sabatinado ontem (4) pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Acusado de homofobia por declarações anteriores, o oficial foi enfático aos senadores. “O indivíduo não consegue comandar. A tropa fatalmente não vai obedecer. Isso está provado. Não é que o indivíduo seja criminoso, e sim o tipo de atividade. Se ele é assim, talvez haja outro ramo de atividade que ele possa desempenhar”, e admitiu aceitar homossexuais no quartel, desde que estes mantenham segredo sobre a opção. Ao final da avaliação, Cerqueira Filho foi aprovado para o cargo.
 

Dispensado do serviço militar, vou me abster de comentar assuntos relativos à caserna. Na seara em que convivi, o voleibol, a homossexualidade sempre existiu e poucas vezes causou problemas ou desdobramentos mais contundentes. O esporte é um misto de arte -talvez um “outro ramo de atividade” a que o general tenha se referido - e exército, portanto campo fértil à discussão. A expressão da criatividade e do talento só vingarão se houver disciplina militar a dirigir os passos do prodígio.

O rigor das concentrações e dos treinos, a multiplicidade do convívio social, a dinâmica de alguns jogos e o intenso contato humano favorecem o florescimento de sentimentos recíprocos e multissensoriais. Quando há uma propensão ou uma motivação intrínseca, não há como frear os impulsos e, mais cedo ou mais tarde, a empatia entre indivíduos do mesmo sexo - neste caso - aflora. Algumas modalidades acabam - por esta combinação de fatores e até pela opção sexual latente daqueles que as procuram - tendo entre seus praticantes uma porcentagem considerável de homossexuais.

O problema, portanto, não é mais da aceitação ou não da opção em si, mas da forma como os pares se comportarão num ambiente competitivo. Como eles lidarão com as pressões, as discussões que envolverão um ou outro com os demais colegas ou técnicos, entre inúmeras situações próprias do esporte de rendimento. É proibido, por exemplo, que um heterossexual durma ao lado de seu(sua) parceiro(a) às vésperas de uma decisão, no entanto, dentro do grupo, isso será permitido, pois é correto estabelecer regras, mas não ser preconceituoso.

Ora dirão: neste caso é só determinar que os casais não dividam o mesmo quarto na concentração! A menos que se queira perder o campeonato e até o emprego, caro colega. As coisas não assim tão simples da arquibancada para dentro da quadra. O certo seria também não agir com preconceito e abrir a possibilidade também aos hetero - e também aos homo - que têm seus pares fora do grupo de terem a mesma regalia... Logicamente quanto mais profissional o time, mais consciência em relação a isso, e as coisas se ajeitam por si.

Tive a oportunidade de trabalhar no Palmeiras com um dos poucos atletas assumidamente homossexuais, o falecido atacante Lilico. Nunca convocado para a seleção brasileira, ele creditava isso ao preconceito. Uma situação exigiu minha interferência, mesmo assim, com solução fácil e rápida. Quando anunciei que haveria um rodízio entre os companheiros de quarto, com o objetivo de promover maior entrosamento no grupo, os demais reclamaram - em particular - que não se sentiriam bem em conviver a portas fechadas com Lilico. De imediato, um deles, antevendo os possíveis desdobramentos do problema, se candidatou ao posto.

Jamais tratei Lilico com restrições, ressabiamentos ou distância ou me vali de frases ou palavras jocosas ou de dupla interpretação. Não me importava sua opção sexual, pois tinha um grupo composto por 12 seres humanos, que expunham às vezes a ferocidade masculina, mas em outras, agiam com o medo da alma feminina, que quer o conforto de uma palavra de apoio ou um abraço. Lilico era igual a todos a meu ver e agir, por isso a relação foi durante toda a temporada de absoluto respeito.

A exposição realmente atrapalha. A sociedade não está preparada para aceitar algumas quebras de padrão. Hipocritamente, até finge benevolência, mas diante da menor falha dispara suas flechas homofóbicas e destrava a Caixa de Pandora de seus preconceitos mais profundos. Infelizmente, a desfaçatez ainda contribui para a vida longa do atleta homossexual. A livre exposição só se dará quando a discussão sobre o tema não virar um espetáculo pirotécnico. É isso que atrapalha muito a aceitação.

*Cacá Bizzocchi é técnico de vôlei, professor de Educação Física, jornalista, comentarista da BandSports e colaborador da Photo&Grafia Comunicação ( bizzocchi@photoegrafia .com.br)

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