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08/03/2010

A opinião de Cacá Bizzocchi*

Lideranças

SANTO ANDRÉ / SP (LCS) Invictus não foi convidado para a festa do Oscar de ontem (7) à noite. Porém, merece a atenção dos fãs do cinema e do esporte. E também dos políticos - não dos fãs destes, que duvido que existam, mas dos próprios. O filme, dirigido por Clint Eastwood aborda o fim do apartheid na África do Sul e transição do país para uma vida sem segregação racial.

Em 1994, Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul. No ano seguinte o país seria sede do Campeonato Mundial de Rúgbi. Começa então uma aula de liderança política de Mandela, divinamente representado por Morgan Freeman. A diferença entre o homem de visão e o visionário está na maneira como eles constroem o futuro. O primeiro prevê as várias possibilidades e pavimenta a estrada que possa conduzir o plano à opção desejada desde o cenário atual; já o visionário cria uma possibilidade de futuro e tenta empurrar o presente para sua miragem. O homem de visão constrói o caminho em direção ao presente; o segundo o faz no sentido inverso, sem noção exata de onde está o futuro que vislumbrou.

Mandela vê na realização do Mundial em solo africano a grande oportunidade de unir negros e brancos de um país que se divide entre a sede de vingança e a desconfiança. Extinto o apartheid, a história de outras repúblicas do continente parece prestes a se repetir e banhar o território de sangue. Depois de décadas de opressão, uma boa parcela da população espera que Mandela exclua dos próximos capítulos da história do país aqueles que o deixaram 27 anos aprisionado.

No entanto, Nelson sabe que só conseguirá construir um futuro promissor para a África do Sul se unir as forças de negros e brancos e extirpar o ódio de uns e a desconfiança de outros. Durante o apartheid, o rúgbi era considerado o esporte dos brancos, o que fazia com que os negros não só o ignorassem, mas usassem os jogos contra outras nações para manifestar seu descontentamento em relação a este braço da segregação. E torciam descaradamente para os adversários.

Para destruir essa barreira, o presidente - torcedor do contra confesso nos tempos de prisão - procura se aproximar da seleção que se preparava para o torneio. Chama o capitão do time François Pienaar (Matt Damon) para um encontro na sede do governo e instala entre eles uma cumplicidade que pretende redesenhar os rumos do país, por meio do time de rúgbi.

Pienaar exerce uma liderança que parece tímida e inoperante para aqueles que esperam por verborragias exaltadas e acirramento de ânimos. Não se impõe à força nem se indispõe quando suas interferências não são muito bem aceitas pelos colegas, apenas aguarda um momento mais oportuno. E torna-se um líder melhor ao descobrir a grandeza das aspirações do presidente e antever sua própria importância para o país. Com isso, contagia os companheiros, sem arroubos de impetuosidade ou exageros.

Ambos mostram a importância da liderança positiva, sem rancor, sem imposições, com o exemplo e o propósito elevado. Aos aficionados do esporte, bem serve para reflexões a respeito de liderança, determinação, envolvimento e visão, além da constatação do poder do esporte. Aos políticos... esqueçam.
 
*Cacá Bizzocchi é técnico de vôlei, professor de Educação Física, jornalista, comentarista da BandSports e colaborador da Photo&Grafia Comunicação ( bizzocchi@photoegrafia .com.br)

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